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IMPRENSA: Leia aqui a entrevista Maria Bethânia à "Playboy" em 1996


Dizem que, num de seus delírios pós-tropicalistas, o empresário artístico Guilherme Araújo tentou colocar Maria Bethânia vestida de fada no palco, com varinha de condão e tudo. A idéia não colou - afinal, estamos falando de uma cantora que só faz o que quer, capaz de atirar o microfone longe quando o ensaio vai mal. Mas até que esse toque de fantasia tinha a ver. Bethânia carrega uma personalidade mística que não escapa às pessoas mais íntimas. É uma "sacerdotisa" para Caetano Veloso, o mais ilustre de seus sete irmãos. "Iansã viva" no palpite do jornalista e produtor cultural Nelson Motta. "Esfinge Baiana" para outro jornalista, o já falecido Ronaldo Bôscoli. "Um orixá”, na opinião do escritor Jorge Amado, ele próprio cada vez mais próximo de se parecer com uma entidade nagô. Nem a nova amiga, a gaúcha e modernete Adriana Calcanhoto, deixa de fazer um comentário esotérico: "Ela tem um fogo sagrado", avisa Adriana, autora da música que deu nome ao mais novo pacote de disco e show de Bethânia, Âmbar.Para não perder o hábito (e dar mais gás a sua aura elegante odara), esta senhora de 50 anos, a primeira mulher brasileira a esbarrar em um milhão de cópias vendidas de um dos seus 35 discos, Álibi, de 1978, vive batendo na madeira para espantar os maus espíritos. Precisar, não precisa. Maria Bethânia Viana Telles Velloso, faz tempo, vive no Olimpo das grandes intérpretes da música popular brasileira. Tudo porque, como queriam os deuses, aos 18 anos saiu da Bahia e substituiu Nara Leão, musa da Bossa Nova, num célebre espetáculo do Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, em 1965. Franzina, tímida, caladona, a ilustre desconhecida puxou para baixo os queixos da platéia quando soltou a voz grave e selvagem para cantar Carcará, de João do Vale e José Cândido. No refrão - "Pega, mate e come" - , quem engoliu o musical foi ela, uma estrela desde o começo.Da cidade natal, Santo Amaro da Purificação, até o paco Olympia de Paris, Bethânia foi aspergindo seu pó mágico de grande dama. Entre patuás e discos de ouro, entre oferendas às divindades do candomblé e o dom para endeusar compositores - Djavan, Gonzaguinha -, a cantora fez fama, fortuna e folclore. Hoje ela é uma diva que mora encastelada na Estrada das Canoas, zona Sul do Rio, protegida por duas cadelas Boxer e abraçada por jardins e cachoeiras artificiais. Anti-social, célebre por manter a vida íntima guardada em mistério, tornou-se um desafio que playboy propôs a experiente repórter Norma Couri, de volta ao Brasil ao cabo de oito anos como correspondente do Jornal do Brasil em Lisboa.

O resto da vida é acessório?
Fico fazendo hora para o tempo passar, para poder subir no palco outra vez.

Você passa isso para o público?
Tem casos de pessoas que assistiram 36 vezes ao mesmo show. Uma vez, fui procurada por uma mulher com a expressão desesperada, no final do show. Ela dizia: "E agora, o que eu faço com isso tudo? O que eu faço, pelo amor de Deus?

O que você respondeu?
Não tem resposta. São coisas que passam sem a gente perceber. Eu sei de gente que vai assistir ao show calibrado com um drinque antes e o motel reservado pra depois. Bebem a energia, ela não termina quando o show acaba.

E você, como sai?
Exausta [risos]. Desabo na cama e durmo.

É como se tivessem tirado tudo de você?
Não, eu é que dei tudo. Minha irmã Nicinha, que eu chamo de "Babá", já sabe. Quando chego depois do show, ela diz: "Bom, até já, que eu vou guardar a bolsa", e não volta mais. Sabe que eu não volto muito normal. Isso há anos.Redondos: 50 de vida, 35 de carreira, 35 discos.Já passei por todas as gravadoras do Brasil. Sou o contrário da Fafá de Belém, que, num programa de TV em que os quatro convidados dela eram presidentes de gravadoras, dizia, muito orgulhosa, que nunca tinha brigado com eles. Eu brigo com todos e vou-me embora [risos]. Gravadora é pra vender e eu, pra criar. Tem de haver um desentendimento.
Você também não levaria ninguém para a televisão, porque detesta, não é?
Eu não rendo em TV. É fria e tem regras assumidas, quem entra num estúdio de televisão tem de gritar. Ninguém diz: "Por favor, você poderia se sentar ali?" Não, é assim [aos berros] "Maria Bethânia, senta ali"[Risos]. Não é humano. Você está cantando, o câmera erra alguma coisa, o diretor grita, estremece o mundo e seguem-se muitos palavrões. Todo o mundo é poderoso, o diretor fala "corta" e você some. Fico desse tamanhinho.

Por causa de sua aparição no programa da Hebe Camargo, há dois meses, você foi incluída entre os "espantalhos" da TV, junto com a primeira dama Ruth Cardoso e o cirurgião plástico Ivo Pitanguy. A audiência caiu 2 pontos [risos].
A Hebe me convidou tanto que eu fui. Só que não agüentei, na hora de entrar pedi para ir embora. A Hebe implorava e eu chorava... É ruim porque a televisão é obsessão de brasileiro e eu preciso divulgar meu disco.

Você vê televisão?
Só esporte. Sou louca pelo Chicago Bulls, não perco um campeonato.

E novela, você acompanha?
Quando o par romântico era Dina Sfat e Francisco Cuoco eu não perdia [Risos]. A Dina chegava a me ligar no Canecão, em pleno show, para avisar: "Não perca a cena de amanhã, vai ter camisola preta" [Risos]. Eu adorava as cenas em que ela punha camisola preta. De lá pra cá, Santo Antônio!, piorou tudo nas novelas, até a luz. Claro, tem o Raul Cortez, o Lima Duarte, que é gente de teatro. Esses valem a pena.

Você se inspira em alguém? A musa não era a cantora Janis Joplin?
A gente se conheceu, ela gostava de mim, fez questão de vir a minha casa quando esteve no Brasil no início de 1970, mas já estava catatônica com a heroína. Mas o desconforto que ela e o Jimmy Hendrix expressavam tinha a ver com o Tropicalismo. Era aquela alegria por trás, um querer bem ao Brasil e o lema: "Não parecemos com ninguém, mas temos um estilo". Sem a humilhação que o brasileiro normalmente ostenta, sem botar tapete vermelho para o estrangeiro.

Foi isso que você comentou sobre o terceiro disco de Marisa Monte, dizendo que era a primeira vez que ela parecia contente em ser brasileira?
E sem mostrar que fala inglês! Ela vendeu assim: Sou bem nascida, só me identifico com Nova York, a minha música, a minha maneira de vestir e andar têm uma raiz novaiorquina. Os discos nova-iorquinos dela são ótimos, só não me tocam o coração como esse que elogiei [Verde, Anil Amarelo Cor-de-Rosa e Carvão, de 1994]. Não se iluda, ela não deixou de ser nova-iorquina, não. Mas jogou com o nome de Paulinho da Viola e o violão de Gil.

Você não canta em outra língua?
Não. Quando enfio umas canções espanholas no repertório é porque têm a cara da gente. Agora, não sei quando, vou fazer um disco - com canções francesas, porque sou apaixonada.

Por Paris?
Queria até fazer o clipe de Âmbar cantando Chão de Estrelas com cenas de Paris à noite. Você já viu já viu alguma coisa mais parecida com Paris que "Tu pisavas nos astros distraída/ Sem saber que a ventura desta vida/ É a cabrocha, o luar e o violão...."? Não dá uma força enorme a uma canção carioca?, que se refere ao morro do Salgueiro, com imagens de Paris? Mas a gravadora cancelou.

Paris é tão familiar assim pra você?
É igual a Santo Amaro da Purificação [Risos]. Sempre tive fixação por Paris. Quando dizia que ia viver viajando pra lá, meus amigos baianos diziam: "Oxente, essa menina é pequena mas fita os Andes". Chego lá e é como se estivesse em casa, ando sem parar, e tropeço em astros distraídas...no lobby do hotel.

Onde você costuma se hospedar em Paris?
No L'Abbaye.

Não é lá que ficava Jorge Amado?
É, e meu companheiro de quarto é o Mastroianni! Quer dizer, ele se hospeda no mesmo quarto que uso quando vou a Paris, e fica tomando champanhe na lareirinha lá de baixo, rodeado de um monte de atrizes famosas , todas ex-mulheres dele, Catherine Deneuve entre elas.

Você se senta lá também?
Não, mas divido o mesmo chuveiro com ele. Só tem um quarto no L'Abbaye com chuveiro normal, os outros são aqueles europeus, estilo telefone de mão, que você tem de ficar segurando. Então, só me hospedo no quarto 3. Mas teve um reveillon em que eu estava no meu quarto e o Mastroianni chegou, querendo ficar ali. Falei com o porteiro e soube que aquele chuveiro em pé foi o Mastroianni quem mandou instalar. Achei que ele merecia que eu cedesse o quarto - e eu já ia passar a noite fora de qualquer jeito. Ele me mandou um recado, dizendo que voltava dia 2 para a Itália. E eu mandei um bilhetinho "Mastroianni, pode ficar" [risos]. Não é pra me sentir em casa?

Vamos voltar pra cá. Ficou em todo o mundo uma dúvida desde 1965, quando você cantava Carcará - "É um bicho que avoa que nem avião/ É um pássaro malvado/ Tem o bico volteado que nem gavião..." Era um ato político que tinha a ver com o marechal Castello Branco, na Presidência depois do golpe militar de 1964? Afinal, Castello era feio e, como o carcará, nordestino.
Carcará é um pássaro feio, forte, violento, que tem o pode de carregar uma águia mesmo. E o autor da música, João do Vale, é um cara intuitivo, estávamos numa ditadura em 1965, ele sabia que a música ia ser usada no espetáculo do grupo do Teatro Opinião contra a maldade e o poder dos militares. Era também a força do nordestino , do homem brasileiro dizendo "sai de baixo que eu também sou carcará".

Você disse que não mistura arte com política.
Mas, como todo artista, sou uma esponja, assimilo, chego no palco e boto pra fora. Foi isso que aconteceu no panorama cultural daquele período. Depois, não melhoramos muito. Saímos desses anos negros para cair numa cilada perversa de causar danos iguais ou maiores. Como eleger aquela quadrilha que nos deseducou, desnorteou e tirou tudo do lugar.

Você está falando......daquele presidente que a gente botou pra fora.Fernando Collor. [bate na madeira três vezes e sopra] Não digo o nome dessa miséria.Você fez campanha por Tancredo Neves, não foi?
Achava o Tancredo um velhinho maravilhoso e torci por uma idéia, "Diretas Já". Campanha mesmo foi só para o Fernando Henrique [nas eleições de 1994]. Mas nunca mais faço outra.

Por que? Você se decepcionou?
Está sobrando miséria, violência, desemprego, e as pessoas fingem que não estão vendo. Lembro-me do julgamento dos "anões do orçamento", no qual aquele deputado descarado, Genebaldo Correia [do PMDB da Bahia, cassado pelo Congresso Nacional por corrupção em 1994], aquele moleque lá da minha terra, olhava para um cheque dele mesmo e respondia "Não lembro, não" [Risos]. Ele se "esqueceu" de ter comprado uma fazendinha de 1 milhão de hectares. Pois o poder brasileiro hoje é Genebaldo.

E quanto ao senador Antônio Carlos Magalhães [do PFL da Bahia], que apóia o governo?
O Tonico? Ele é como sarapatel: ou se ama ou se odeia. Adoro ele, é supermaravilhoso, a gente se envia telegramas nos aniversários. Antônio Carlos é um homem poderoso, que mexe com emoções exageradas, sentimentos extremados. Todos os Estados têm seus "caciques", e ele é louco pela Bahia, faz umas campanhas no jornal e na rádio - é tudo dele, o jornal, a rádio - , como "Orgulho de ser baiano"! E é machão, dasacata todo o mundo, divide os baianos. Em todos os espetáculos que fiz, desde a estréia no Rio, dentro ou fora do Brasil, ele estava na platéia.

Você vota nele?
Nós somos uma família de esquerda, não temos formação de apoiar o pensamento do senador, que é de extrema direita. Depois, voto no Rio. Mas esse homem trata o artista com o respeito e distinção. E sempre reverencia minha mãe, Canô, da maneira mais nobre e clássica. Esse gesto de delicadeza tem de ser agradecido, porque é educação que está faltando no Brasil. E, olha, quando a igreja de minha cidade, da Nossa Senhora da Purificação, que tem 400 anos, caiu, não houve político de esquerda que desse jeito. Telefonei para o Antônio Carlos Magalhães, foi na hora - e eu não posso pensar em viver sem a igreja de Nossa Senhora da Purificação de pé.

O Presidente também é um homem distinto?
Fernando Henrique, que conheci há muitos anos em Paris, na casa de minha amiga Violeta Arraes [irmã do governador de Pernambuco, Miguel Arraes], é inteligentíssimo, bem-humoradíssimo, honestíssimo e tem uma conversa bacaníssima. Agora, como é que ele permite que no governo dele as escolas exijam avalistas para matricular uma criança?

O Lula daria um presidente melhor?
Votei nele [nas eleições de 1989]. Chorei na hora de votar, fui criada ouvindo meu pai [José Telles Velloso, falecido em dezembro de 1983], funcionário dos Correios e Telégrafos, carteiro e poeta, dizer que queria um trabalhador na Presidência do Brasil.

E o que achava do envolvimento de artistas em outro tipo de campanha, como a que Daniela Mercury fez para a Antarctica?
A conta da Daniela é do [publicitário] Nizan Guanaes, que é baiano. Ele patrocina e usa a Daniela. Agora, a Daniela está com uma música na novela [À Primeira Vista, de Chico César, na trilha de O rei do Gado], até que está tocando bem. Mas soube que o segundo disco foi um equívoco. Eu não suporto a axé music, acho um cão. Mas a Daniela tem talento.

E a Adriana Calcanhoto?
Não coloque a Adriana no nível da Daniela, que não tem nada a ver. A Calcanhoto é uma compositora muuuuuito boooa, uma menina que tem um trabalho diferenciado, especial, nobre e com muito humor, sem perder o pé no popular. Faz as performances mais loucas, as poesias mais absurdas, os discos mais complicados. As gravadoras devem se arrepiar todas quando ela entra em estúdio. Ela declarou que não gosta de música com princípio, meio e fim, o que é, no mínimo, louco e maravilhoso.

E Daniela?
É uma moça bonitinha, gostosinha, bem-feitinha, faz essa linha pernoca-de-fora, tem talento, tem voz, sabe cantar, sabe dançar, sabe fazer tudo. Mas tem uma musiquinha que não é nada.

Quem toca o seu coração?
Nora Ney é chiquérrima. Dalva de Oliveira é campeã. Hoje a voz que me comove no Brasil é a de Nana Caymmi.

A onda Mamonas Assassinas não pegou você?
Tive uma pena da morte dos meninos, mas tinha uma grossura braba ali.

E o Tiririca?
É a prova de que o brasileiro se identifica com suas misérias: o palhaço sem dente, falando palavrão. Música Sertaneja, Baião, Forró, Xaxado, Festa Junina, - tudo descambou para essa coisa porca. Parece aquele filme horrível, com aquela atriz estranhíssima que ataca o Michael Douglas...

Assédio Sexual, com Demi Moore.
...a grande vedetinha, o maior selário de Hollywood, essa mulherzinha que deu pra fazer strip-tease e casar com aquele machão [o ator Bruce Willis]. Pior mesmo, só 9 e ½ Semanas de Amor - nojento, medonho, saí do cinema no meio do filme. Eu adorava o Waldick Soriano cantando Eu Não Sou Cachorro Não, mas não acho a menor graça no fulano que canta hoje Eu Não Sou Corno Não.

Como você escapa dessa confusão radiofônica?
Não ligando o rádio. E lendo Mônica, Cebolinha, Pato Donald, Tarzan, Fantasma, Drummond, Pessoa, Verlaine, Baudelaire e Proust.

Nessa ordem?
[Risos.] Na ordem inversa. Em quadrinhos eu me viciei depois de grande. Agora [o romancista francês Marcel] Proust eu lia com 14 anos porque um grande amigo meu, o [cineasta e diretor de teatro baiano] Álvaro Guimarães, o Alvinho, me aconselhava: "Bethânia, você tem de ler Proust muito cedo, para já arrancar na vida sabendo das coisas".
Você entendia o que lia?
[Rindo.]Dançava. Quando desembarquei no Rio, três anos depois, minha amiga [a atriz] Teresa Aragão voltou a me aconselhar: "Esquece o que você leu, leia tudo outra vez; você não tinha juízo para ler Proust". Na época, obedeci porque Alvinho era diretor de teatro. E tudo o que eu queria na vida era fazer teatro.

Você nunca fez?
O que eu gosto no teatro são os extremos. De um lado, circo, picadeiro, trapézio. Do outro, personagens como Electra [da tragédia homônima do poeta grego Sófocles] ou a Adela de A Casa de Bernarda Alba, do [poeta e dramaturgo espanhol] García Lorca. Descobri que me realizo mesmo é misturando teatro e circo no espetáculo... e cantando.

Você nunca teve medo do palco?
Nenhum. Hoje tenho medo de tudo, até de avião. Passei a ter medo das coisas de que mais gostava. Trovoada, por exemplo.

Seu orixá não é Iansã?
Precisamente, a senhora dos raios, dona das trovoadas e da tempestade. Tenho medo, horror, pavor também de...aquele inseto nojento... que é igual àquela pessoa cujo nome eu não falo...
[Bate na madeira três vezes e sopra. Risos] Tenho horror de rato também. O que eu era corajosa antes... Acabou. Andava de moto a 150 por hora. Enfrentei o Teatro Opinião sem sentir nada. O medo veio agora, retroativo.

Quando foi chamada pelo Opinião, aos 18 anos, você viajou sozinha para o Rio?
Caetano teve de me acompanhar, ou meus pais proibiam - eu era virgem! Caetano e eu sempre fomos muito unidos, parecidos.
Escritor argentino Julio Cortazar, quando viu um espetáculo de vocês dois no Rio, em 1975, definiu: "Ele e a irmã são a mesma pessoa".
Isso porque ele não viu o resto da família. Somos oito irmãos, dois adotados, alguns muito parecidos... Mas Caetano e eu somos grudados. Quando nasci, ele tinha 4 anos e me deu o nome.

Tirou de onde?
De uma valsa linda do [compositor pernambucano] Capiba, gravada por Nelson Gonçalves [cantando]: "Maria Bethânia/ Tu és para mim a senhora do engenho/ Em sonhos te vejo, Maria Bethânia/ És tudo que eu tenho". Meu irmão Rodrigo queria Mary Gisleine, nome de uma rumbeira do circo por quem estava apaixonado. Entre a valsa e a rumbeira, meu pai agarrou o boné e fez o sorteio, cada um pôs um nome. Saiu Mary Gisleine [Risos]. Mas Caetano fez birra.

Caetano disse que você se atirava no chão, que era exótica, rebelde...
[Rindo.]Me atirar, sempre me atirei. Enchia o tanque de água e pulava achando que era o mar. Dava saltos de trampolim da cabeceira da cama, sonhava que estava dando um mergulho e ficava estática no ar. Como tinha umas unhas gigantescas e pintava cada uma de uma cor, me achavam muito exótica lá em casa. Me enchia de pancake na cara, tipo máscara de índio americano, me enrolava numas roupas de cânhamo misturadas com fios de couro cobre que eu mesma fazia. E essas loucuras todas eu tripliquei, de rejeição e raiva, quando meus pais me mandaram estudar em Salvador. Passei a me vestir de Fedra, copiando o filme da [falecida atriz grega] Melina Mercouri.

Você foi sempre assim?
Engraçada, saudável e feliz.O ventre da minha mãe é muito limpo. Todos os filhos têm muito humor, o que é fundamental.

Um humor um tanto alterado, segundo dizem...
Oscila, sim. Tenho um rubi no coração com 29 pontas, vai para todos os lados, dá para muitas pessoas e emoções. Por um lado sou quieta, interiorana...

...e, por outro, arrumou alguns desafetos. Todo o mundo soube daquela corrida que você deu no Guilherme Araújo, seu ex-empresário, na sua própria casa, saindo do banheiro, nua. É verdade que você caiu de pancada em cima dele?
[Séria.] Hoje ele é meu grande amigo. Tivemos uma discussão muito violenta, mas foi ótima.

Problema de dinheiro?
Não. Aquela discussão maravilhosa, de trabalho, foi porque eu sou muito ciumenta. Ele queria trabalhar com a Gal e o Caetano... Queria que eu fizesse mais show do que eu podia... Foi construtivo.

Pode ter sido construtivo, mas houve tapas.
Não, já passou, somos amigos. Guilherme acabou foi inimigo da Gal, com quem não fala até hoje. Pelo Caetano, tem respeito. As pessoas têm é que entender o Guilherme, tudo nele é muito passional, a vida dele não tem distância de empresário, é relação de casamento. Mas ele gosta de mim. Nos meus 50 anos, pegou uma foto minha aos 25, mandou fazer um cartão lindo e deu para todos os meus amigos.

Mas você rasgou o contrato que tinha com ele.
Realmente, fui ao escritório dele e falei: "A partir de hoje estamos rompendo o nosso contrato. Não temos contrato de nada, nem de trabalho, nem de amizade, nem de amor, nem de nada. A-ca-bou, a-deus." Ele chorou, disse que eu estava errada. Mas fui embora. Eu sou assim.

Com Ronaldo Bôscoli também teve briga?
Briga, propriamente, não. O Ronaldo, que Deus o tenha, foi um jornalista que me perseguiu aaaaaaanos, na coluna dele. De repente, começou a dizer que eu era deusa. Mas nunca me aproximei dele.

Não foi com ele que você e Caetano se desentenderam já no primeiro Festival Internacional da Canção, em 1966, no Maracanãzinho, no Rio?
Era um canção do Caetano e do Gil [Beira Mar] sobre o mar da Bahia......e o Ronaldo Bôscoli, que era carioca e estava no júri, falava para os jornais: "Ué, o que esses baianos estão pensando? Eles não conhecem Cabo Frio, Saquarema, Araruama, Angra dos Reis? Estão falando que o mar da Bahia é que é o mais azul do mundo? E Caetano, que já era metido a galo-de-briga, se enfezou. A música foi desclassificada, né?

Você não brigou também com a Nana Caymmi?
Nana? Não vive sem brigar com alguém [Risos]. Morro de medo dela, tremo... e morro de rir.

Você teve outro desafeto: Glauber Rocha.
Briga não houve, não. Mas quando Glauber fez O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro [em 1969], eu cantei uma música no filme e ele cortou. Era um verso, "Será que o sol quebra a vidraça/ Será que o sol vai quebrar?", só isso. Gravei durante dois dias, só porque amava o Glauber e minha melhor amiga era irmã dele, a [falecida atriz] Anecy Rocha. Glauber era um Deus. Ficava trabalhando nu em casa, criava um clima. A Anecy falava: "Bethânia, não vai lá porque o Glauber está trabalhando", e eu já sabia que significava: "Glauber está nu". Eles morriam de rir, mal eu ficava muito tensa, aí a Anecy tentava relaxar: "Vamos quebrar um loucinha por aí" [Risos], o que na época significava "vamos dar uns amassos".

Por que Glauber cortou a cena da música?
Não sei. A Anecy explicou que ele precisou tirar toda a seqüência. Claro que eu nunca cobrei nada, imagina - o Glauber me convidar? Um luxo! Só que um dia eu estava no [Hoje extinto] bar Zeppelin [Ipanema] quando a Odete Lara, que era atriz do filme, chegou à mesa e fez uns comentários muito ruins, botando tudo pra baixo. E eu, é claro, reagi, fiquei com raiva.

Você continuou amiga do Glauber até a morte dele?
A gente se via muito em Paris, ele e a mulher dele, [a falecida atriz francesa] Juliet Berto. Era uma francesa linda que eu amava, com quem ele teve a última casa na França, e que durante um show que fiz no Olympia [Casa de espetáculos parisiense] me deu todas as relíquias do Glauber. Fotos, cartas, cartazes de filmes, recortes. Ela confiou isso a mim e levei direto para a tia Lúcia [mãe do Glauber Rocha].

Você falou do seu humor alterado, revendo seus desafetos, seus períodos negros. É verdade que, nos anos 60, você tentou o suicídio tomando Varsol e barbitúricos?
Não importa se tomei Varsol, se não tomei, se foram cinco ou dez comprimidos. Acho que quem tomou Varsol foi uma amiga minha. Eu só tomei barbitúricos. De qualquer forma, estava num processo depressivo - por nada, ia tudo bem, carreira, dinheiro ... Eu morava numa cobertura na Rua Nascimento Silva, em Ipanema, brincava muito nas areias das "Dunas da Gal" [na praia de Ipanema do início dos anos 70, montes de areias formados durante a construção de um emissário submarino viraram ponto de jovens, e Gal Costa era presença constante], andava de boate em boate. De repente, tudo foi ficando triste e banal. Comecei pedindo remédio pra dormir, fui tomando, apaguei e não acordava mais. O que importa é que não morri.

O que tirou você desse buraco? A psicanálise?
Foi. Passei por três psicanalistas. Fez brotar alguma coisa em mim, me despertar, jogar essa angústia fora, agüentar a dor. Depois tive perdas muito fortes, meu pai morreu e o máximo que me aconteceu foi ficar mancando.

Você tem medo de ficar velha?
Nenhum. Meu cabelo demorou pra ficar branco e eu peço aos fotógrafos que não disfarcem, nem na capa do meu disco. Também não vou fazer plástica nenhuma. Foram cinqüenta anos para chegar até aqui, pretendo me divertir muito e não jogar nada fora. Até minha voz melhorou.

Qual a parte do seu corpo que você acha mais bonita?
Gosto do meu corpo, minha cara, meus pés, minhas mãos quando estou cantando. Fora do palco, eu me esqueço.
Você nunca quis ser rechonchuda?Nunca quis ser diferente do que sou. Convivo muito bem comigo, não me atrapalho em nada.

Você gosta de ser sexy?
Não me acho sexy.

Mas gosta de sexo?Sexo é fundamental?
Importantíssimo.

Só de olhar alguém, você saberia dizer se se trata de uma pessoa realizada no sexo?
Ah, eu não sou assim craque, não, menina [gargalhada]. Como dizia uma amiga minha, às vezes é rebate falso.

Mas você diria que sexo muda as pessoas a ponto de os outros notarem?
Não acho que é tão evidente assim. Depende. Conheço pessoas, de uma beleza, de uma profundidade, de uma expressão... que jamais tiveram qualquer relação sexual na vida. Pessoas de chorar de tanta beleza. E conheço outras que transam, que fazem muito amor, são muito dirigidas para sexo. Tem períodos mais animados para o sexo, mas, mesmo não fazendo sexo, existe sexo na cabeça.

O sexo ficou banal?
Ficou. Pra mim, não tem graça nenhuma. É fácil e rápido? Não quero. Eu gosto desse coisa com tempo, é uma perna que passa, é um olhar demorado, isso é que eu acho sensual, bonito.

Você acha, como tanta gente, que sexo é para se fazer todo dia?
To fora. Parece que é um escovar de dentes, o Fantástico anunciando, "escovar os dentes todo dia, fazer sexo todo dia, comer tomate, senão morre". Menina, o povo vive doido.

Então a liberação fez mais mal do que bem?
Tem muita gente nova fazendo sexo assim, porque não tem o que fazer. Isso é loucura. O namoro ainda é o grande momento.

Os complementos?
Lençol de cetim claro. Adoro. Mas na verdade prefiro linho. Sou apaixonada, não esquenta, e no lençol fica bom.

E roupa?
Acho muito mais bonito uma mulher debaixo de uma cachoeira vestida do que nua, acho mais bonito tirar a roupa de uma pessoa do que já encontrá-la sem. Tudo pra mim tem de ter teatro. Você vai se sentar para almoçar, não tem teatro nisso? Senta, desdobra o guardanapo, pega o copo...é teatro. A mesma coisa numa relação de amor ou amizade

A vida é um cenário.
E tem que ser bem-feito, com uma boa luz. Um bom espetáculo!

Você é ciumenta?
Sou. Demais. De tudo.

Seus amores acabam por isso?
No amor é onde eu sou menos. Sou muito ciumenta com meus amigos, família, trabalho. Para trabalhar comigo tem de ser 24 horas para mim. Mas sou ciumenta também nas paixões, nos amores. Sou muito apegada.

Você namora duas pessoas ao mesmo tempo?
Já fiz.

Quando era jovem?
[Rindo.] Nem era tão jovem.

Ontem mesmo?
Não. A gente tem na cabeça a idéia de que pode trair porque tem juízo e o outro não pode porque não tem. Já caí nessa, agora não caio mais. Não tenho mais vontade de anarquia. Já brinquei demais... [Pausa.]E continuo brincando [Gargalhada].

Mas você tem essa de viver um grande amor de cada vez?
Sempre que se ama, se vive um grande amor de cada vez.

É um pouco coisa de mulher só fazer amor com quem se ama?
Concordo ple-na-men-te!

Se você tivesse que dar algum conselho às mulheres, o que diria?
Procurar ter prazer em tudo. Quem está sendo traído, que parta para outra, esqueça - tem tanta mulher, tanto homem no mundo...

É fácil assim?
Nada é fácil nesta vida. Mais difícil é ser humilhada, traída, amargurada, se achando gorda, feia, velha, desprezível...Não! Segura a onda. Parte para outra. Ou então agüenta essa numa boa. Se gosta tanto que não pode viver sem, aproveita o tempo que tiver. Todo o mundo vai ficar muito mais feliz.

Quem a Aids penalizou mais? O homem ou a mulher?
Pior é essa situação da mulher, a grande sofredora dessa história. Porque homem não tem vergonha na cara mesmo, parece que encontrou na lata do lixo, vai com homem, mulher, periquito, papagaio, de tarde, no ônibus, no elevador, debaixo da mesa - e a mulher em casa, séria, ajuizada... Contaminada. E olhe lá se não vai ter um júri por aí para dizer que foi a mulher quem contaminou, que a mulher é que é vadia.

De qualquer forma, é cruel.
O choque da Aids veio como um castigo à leviandade. Estava demais. Precisava ter um freio, era um não-tinha-mais-onde-parar. O castigo veio cruel e já perdi muitos amigos, fico apavorada, tenho sobrinhos, sobrinhas, filhos de amigos jovens, e o Brasil não tem sequer uma campanha digna, convincente, é uma miséria o que vem sendo feito. Convivo com pessoas instruídas e pergunto: "Transou com camisinha? Não? Então tem que se internar, porque é loucura". Isso porque a campanha no Brasil é assim: "Se possível, use a camisinha".

Não é coisa de país macho? A camisinha faz muita gente desanimar...
Mas é um tipo de relação sexual que não é carregada por nenhum sentimento ou atração mais forte, é a mecânica do sexo. É a famosa excitação artificial, para ter a relação naquele momento. Igual a parar no posto de gasolina e trocar o óleo de um carro. Já ouvi de muitas amigas: "Até pensar na camisinha eu mesma já perdi a vontade". Meu queixo cai.

Você acha que a Bahia tem a ver com a sua sensualidade?
A Bahia é muito sensual e não estou falando de mim só, não. O povo baiano tem languidez, um jeito ali, uma gingada aqui...

Dizem que é porque o baiano come muito marisco.
Tem um específico: mapé. Uma delícia. Muita vitamina E.Dizem que é afrodisíaco. Sobre o mapé se brinca muito, porque os pescadores da região vêm com histórias - teve um que fez filho aos 100 anos - e a base da comida deles é o mapé. Que é pequenino, mas saborosíssimo. Quem for à Bahia não pode deixar de comer moqueca de mapé.

Que mais a Bahia tem de especial?
Acho que é tudo. Até o mar da Bahia é morno como a barriga da mãe da gente. Nunca vou perder essa vontade de estar cercada das águas baianas, mar, cachoeiras e rios, nunca vou perder essa saudade.

Como você cura essa saudade?
A casa onde moro no Rio há 21 anos, em São Conrado, eu construí no estilo de uma antiga fazenda baiana misturada com Japão [Risos]. Fica no pé da Pedra da Gávea, que era uma baía onde os fenícios deixaram marcas - ou talvez fossem hieróglifos do Egito antigo gravados no granito, porque ali era uma ilha. Quer dizer, morando na Estrada das Canoas, estou no fundo do mar.

Tem cachoeira em casa?
E controle remoto para regular o jato! Não posso viver sem isso, sou louca por água, é Iansã e Iemanjá em mim.

Quantos Santos você tem?
Muitos. Como fui criada na religião católica, na minha casa tem Santo Antônio, Senhor do Bonfim, Santa Bárbara, Nossa Senhora da Purificação, a Sagrada Família, Deus Menino, tenho de tudo que é para minha adoração. É uma casa de santos para o candomblé, que não comporta imagem.

São suas relíquias?
Entre outras. Tenho no altar dos meus troféus, um par de sandálias douradas tamanho 33, de plataforma altíssima, que pertenceu a Carmen Miranda, um vestido da Dalva de Oliveira e as pulseiras de Elizeth Cardoso. Tudo é relíquia. Mas não se pode misturar o candomblé com o resto.

Você tem medo de despacho de macumba?
Naquela época do suicídio me disseram que tinha muito despacho em cima de mim, mas eu nem conhecia candomblé. Sabe como eu conheci a Mãe Menininha? Através do Vinícius de Moraes. Foi ele que me apresentou a ela, uma das maiores alegrias da minha vida. Paixão, paixão, paixão! Eu, baiana, não sabia de nada, tanto que encerrava Rosa dos Ventos vestida de preto da cabeça aos pés. Foi a primeira coisa que o candomblé me proibiu. O preto não combina com os meus orixás.

Você curte igreja?
Nunca deixei de celebrar meus aniversários com missa, sempre na igrejinha de São Conrado, com o padre Djalma, um dos raros que eu respeito e adoro, um padre de muito juízo, valor e vocação. Mas este ano a capelinha estava em reforma e eu fazia 50 anos. Então, minha mãe fez a festa na Bahia e encomendou a missa na igreja de Santo Amaro da Purificação. Missa em latim. Olha, foi de uma elegância, de um chiquê...Com três padres, muita pompa, tudo a que eu tinha direito.

Você fala muito em Deus.
Quando eu era pequena e acreditava piamente em Deus, Caetano chegou para mim e disse que Deus não existia. "Acredita não, Deus sou eu, mana, eu é que sou Deus" [Risos]. Apesar disso, continuei acreditando em Deus. O que não tenho é muita intimidade com Ele. Me dá um pouco de medo. Como fui criada em colégio de freiras, o convento de Nossa Senhora dos Humildes, em Santo Amaro, fui ameaçada com a imagem daquele Ser que vê tudo, um perseguidor, um milico tirano me vigiando para me botar em cana a qualquer momento. Intimidade, mesmo, eu tenho com Nossa Senhora - com ela, tudo bem.

Quem trabalhou com você jura que não pode ter ruga na roupa, o palco é purificado com sal grosso nos cantos e você nunca chega para um show com menos de 3 horas de antecedência.
Olha, tem muita fantasia e acaba virando tudo tão banal. Ruga na roupa não pode, mesmo, e eu nunca chego com menos de 3 horas de antecedência nos meus shows. Mas as coisas que são feitas dentro da religião devem ser preservadas e respeitadas. Numa casa de candomblé se trabalha muito, trabalho braçal, trabalho de concentração, de monitoração. Não é nada dessas pequenas bobagens. Mas estou convencida de que devo estimular esse tipo de história.

Por que?
Porque sou muito calada, na minha... O que eu não faço é que incomoda as pessoas. Não freqüento boate, não janto em restaurante, não vou aonde tem foco para ser fotografada. Sou pessoa de dentro de casa e saio quando dá vontade e para o que me interessa.

Você vai a festa de Iemanjá?
Acho imperdível. Quem perder a do Rio pode recuperar os fluidos na festa da Iemanjá baiana, que é no dia 2 de fevereiro, com saída de barquinhos cheios de presentes para a rainha do mar. É a festa mais bonita do Brasil. Mas também acho que ninguém deve perder o Boi-Bumbá, em São Luís do Maranhão, o Reisado, as nossas tradições para as quais, infelizmente, não temos um Ministério da Cultura preparado.

É uma crítica ao ministro Francisco Weffort?
Eu nem sabia que ele existia. Mas vi o ministro sendo entrevistado num programa de TV, o Roda Viva, e pensei: "Será que estou ficando pirada? Esse ministro é da cultura ou da economia?". Durante 50 minutos ele só falou de verbas, dinheiro e outros palavrões. Depois vi que ele foi homenageado pelas Tietas do Brasil, Betty Faria e Sônia Braga. Agora, de tradição ele não manja nada.

Isso é um recado?
Estou dizendo que a coisa mais bonita que o Brasil tem é a cultura popular. Sabe quem está preservando essa cultura? Famílias simples como a minha, meu pai, que era funcionário dos correios e ensinou música aos oito filhos. E gente como o [percussionista] Naná Vasconcelos. Naná junta 500 crianças de rua em Recife, ensina todo o mundo a tocar em caixa de fósforo, lata de cerveja, tampa de panela. Ensina nossos ritmos, percussão. No final de um tempo, ele elege 100 crianças e faz um disco. Isso é um Ministério da Cultura. E sabe com quanto dinheiro ele trabalha? Nenhum. É maravilhoso, mas é dever do Estado: preservar, não ter vergonha. Para assimilar o que vem de fora a gente não tem de acabar com o que é nosso.

Como?
Por exemplo, fiz questão do colocar a Virgínia Rodrigues, uma garota fantástica, a voz afro-lírica-baiana mais bonita do momento, no meu novo disco. Também mando rezar missa todo Dia de Reis, a 6 de janeiro. Minha mãe foi porta-estandarte dessa festa durante muitos anos e outro dia passou o estandarte para mim. Dancei um pouco na rua, morta de vergonha. Mas cumpri a tradição.

E no Rio?
Também tiro Reis para os amigos. É uma festa-surpresa. A gente arruma os três Reis Magos, as pastorinhas, as ciganinhas, os convidados, a orquestra, a porta-estandarte, o anjo que leva a coroa, combino com as pessoas e levamos tudo, comida, bebida, presentes. Aí, a gente bate na porta da casa de alguém, canta-se, canta-se, canta-se até a pessoa abrir a casa e é festa até de manhã. O amigo não gasta nada e ainda se diverte.

Para quem você já fez?
A última foi para o Caetano, no apartamento dele do Leblon. A Gal anda enfurnada nessa casa que ela comprou em Trancoso [vila no litoral da Bahia], está mais do que preguiçosa de sair da beira do mar. Meus amigos passaram a morar todos em apartamento, andam meio desanimados, precisam levantar com essas coisas.

O que os amigos deram a você na festa dos 50 anos?
[Risos.] Seguindo aquela linha que eu deveria animar meus amigos [gargalhadas], pensei: eles precisam de uma injeção. Resolvi dar o presente primeiro.

O que você deu?
Camisetas. Mandei imprimir várias. Numa, o título do primeiro romance que li, O Coração é um Caçador Solitário [da falecida contista americana Carson McCullers]. Noutra, o final de Chão de Estrelas, "Tu pisavas nos astros..." com [o quadro] Noite Estrelada, de Van Gogh, que me arrebata, ao fundo. Para o desenho da terceira, escolhi uma menina africana da tribo gigante Kao com as mãos nas cadeiras, e por cima estampei a frase de um cubano, que era tudo o que eu queria dizer aos 50 anos.

E o que é?
"Aprendi a não me entristecer com pouca coisa”.

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